sábado, 3 de outubro de 2009

Blogagem coletiva - Despatriados

A Ciça(www.cissa.eu) lançou a idéia e eu gostei, mas peço licença pra escrever um texto pra mim.
Expatriada por vontade própria desde dezembro/2006, ainda em processo de adaptação (será que o expatriado de adapta por completo? tenho cá minhas dúvidas...).

O que eu tenho tentado manter em perspectiva, sempre que eu sinto que estou mais chata do que costume, é:

1. Eu vim pra cá porque quis. Foi minha escolha, ninguém me apontou uma arma e disse "Vai!". E acredito que os expats adultos (porque crianças geralmente não podem escolher) tenham voluntariamente saído dos seus países de origem e mudado para outro lugar. Os casos extremos, como refugiados e asilados políticos, bem como o tráfico humano estão fora dessa postagem.

2. Estou / continuo satisfeita com os fatores que influenciaram a minha opção?
Pra quem se mudou porque casou, o casamento vai bem? Aqueles que mudaram por conta de uma oferta de emprego, o emprego te satisfaz? Caso tenha mudado por conta de estudos, a vida acadêmica te faz feliz? Se alguma dessas respostas for negativa, pense com carinho o que nesse casamento/emprego/estudo pode ser melhorado, pra que vc se sinta em paz. Se nada mais puder ser feito, pra que sofrer? Dê um basta na situação assim que vc puder e busque a sua felicidade, seja ela na nova pátria ou no seu país de origem.

3. Tenha paciência. Com você mesmo, com quem te cerca, com todas as pessoas que fizerem perguntas que vc considere esdrúxulas, já que ninguém é obrigado a conhecer em detalhes a situação geopolítica de todos os países do mundo... O começo da vida expatriada, especialmente se você não domina o idioma local, vai te tirar do lugar em que vc estava antes. Em todos os sentidos. No teu país de origem você conhecia o padeiro pelo nome, tinha o seu cabeleireiro a quem você era fiel, os seus bares e restaurantes de estimação, os seus vizinhos/colegas/conhecidos, estava acostumado com a posição das mercadorias no seu supermercado. No país novo, nada disso está lá. Cabe unicamente a você construir isso tudo. Sozinho ou com ajuda, não importa. O que importa é, depois de um corte de cabelo ou uma ida ao mercado local que não deu muito certo, não se desesperar. Continue tentando, qualquer hora você vai se acertar! (Fico passada com quem vai à lojinha brasileira e paga 3 euros numa lata de leite condensado brasileira, quando dá pra encontrar no supermercado o mesmo leite condensado, com o desenho da moça e tudo, por metade do preço num supermercado local. Santa cabeça pequena, Batman!)

4. Não tenha - muito - medo do novo. Uma das coisas mais legais, se não a mais legal de uma viagem, é o contato com o novo. Sabores, cores, cheiros, lugares, pessoas.
Sei que é difícil quando tudo o que te faria feliz seria uma coxinha/casa da sua mãe/pagodeaxésertanejowhatever/amigos do peito, mas tenha em mente que muita gente no seu país pagaria - muitas vezes caro - pra passar uns dias no seu lugar e aproveite o que você tem. Muitos gostos são adquiridos e aquilo pra que vc torce o nariz agora, pode te fazer bem feliz amanhã... (Eu e água com gás, por exemplo. Odiava com todas as forças quando cheguei aqui, hoje bebo sem fazer careta.)

5. Informe-se sobre e observe sempre os costumes locais. Imite os locais quando não souber muito bem o que fazer e não se sentir à vontade pra perguntar. Clássica cena de filme: a mocinha se vê diante de 10 talheres diferentes e não tem a menor idéia do que fazer com eles. O que fazer? Tomar a lavanda, fazer a lagosta voar pelos ares, cortar o paozinho com a faca ou com as maos? Nananinanão, você não é a Julia Roberts, vida real não é Pretty Woman. Dê uma olhadinha em volta e tente fazer igual aos outros, caso não haja uma alma caridosa pra te acudir.

6. Tente não criticar demais os hábitos locais. Sad but true, nada mais chato do que quem só reclama. (E eu sou reclamona pra caramba, juro que estou tentando melhorar.)
Aposto que você teria vontade de fuzilar quem falasse que é ridículo tomar cerveja gelada, por exemplo. Que você é louca por fazer vitamina de abacate, já que abacate é legume e o lugar dele é na sa-la-da e ui, que nojo só de pensar que você toma isso misturado com leite e açúcar. Ou que o seu jeito de limpar o banheiro, gastando litros e mais litros de água, é prejudicial ao planeta. Tente controlar os seus impulsos reclamões e pense duas vezes antes de fazer alguma crítica.

7. Seja flexível. No seu país novo só se faz sauna sem roupa? Pra quê comprar briga, xingar a mocinha da recepção e arrumar confusão? Ela não vai mudar as regras por sua causa, darling. Tire a roupa, se enrole na toalha e experimente os prazeres do suadouro coletivo pelado. Pode ser que você goste! (Ou não...)

8. Não se iluda, pensando que tudo que acontece com você é necessariamente racismo / xenofobia. A caixa do mercado pode estar num dia ruim e resolver descontar no primeiro que apareceu pela frente, no caso, você. Ou então ela é absurdamente democrática e trata todo mundo mal. Não faça disso um incidente diplomático!

9. Saiba onde fica o Consulado do seu país, tenha os documentos em ordem, não deixe pra última hora uma providência importante. Saiba que Murphy nunca dorme em serviço!

10. Não se leve a sério demais. Não leve os outros a sério demais. Não leve nada a sério demais.

11. Se vire. Se no seu país não existe manicure baratinha, depiladora baratinha, faz-tudo a preço de banana, desenvolva seus talentos. Você vai se surpreender ao ver que á possível manter a casa limpa, a roupa passada, se alimentar e eventualmente montar móveis, fazer as unhas, depilar a virilha, o bigode e o que mais o seu gosto mandar, sem ter que pagar uma nota. Ou então vai aprender a valorizar quem tem esses talentos todos, pra você inacessíveis, e vai pagar o que esses profissionais pedirem.

12. Aprenda a gostar de onde você está, encontre algum lugar onde você se sinta à vontade, não é possível que não exista um metro quadrado nesse lugar onde você escolheu, que não te proporcione um pouquinho de bem-estar...

O texto saiu meio esquisito, metade em primeira pessoa, metade em imperativo, mas vou deixar assim mesmo. Espero que seja útil!

14 comentários:

Estórias Daqui disse...

É isso aí, quem tá chegando tem que tomar uma postura ativa, e não esperar que o país e as novas circunstâncias se adaptem à você.

bjokas

Dona Flor disse...

Adorei! O meu post entra on-line só amanhã, mas não ficou tão bom. Eu ainda estou saindo da fase "reclamona na Alemanha". hahahaha
Beijos!

Camila disse...

Flor, eu acho que adaptacao é um exercício diário. Tô reclamona demais, quase nao saio de casa, um horror. Marido disse estar preocupado comigo, me chamou de antissocial. Resolvi escrever o texto pra puxar minhas próprias orelhas!

Adriana disse...

Camila, também tô procurando vizinhos. Não sei teu sobrenome, mas procura por Adriana van den Broek e vc vai me achar, é só me adicionar. Meu e-mail é o mesmo do blog, avandenbroek@gmail.com. Te vejo na lida! Dri

Ciça Donner disse...

Camila, tenho certeza que servira pra muitos... na verdade tenho uma enorme esperanca nisso!

Muito obrigada por participar, viu?

Luciana Håland disse...

Muito legal seu texto e suas dicas.
Eu ia participar da blogagem, mas comecei a ler os textos e muitos á disseram o que eu ia dizer, então vou participar diferentemente, linkando os que mais gostei e concordo amanhã.
Vou aproveitar e linkar seu blog no meu, não conhecia ainda.
Beijo

Nade disse...

Camila, show de post!
Super útil!
Bela participação!
Também estou participando dessa, mesmo que more no Brasil, mas sou uma 'desnaturalizada'... rsrsrsrs
Bjs, querida!

Vem desfrutar do Amor de Deus disse...

Camila.... menina, de todos os posts o que eu mais me identifiquei foi com o seu...exatamente...temos que nos virar e fazer com que tudo se encaixe em nossas vidas de maneira a nos sentirmos prontas para enfrentar essas diferenças... muito bem colocado tudo...
Parabens
Bjs
Marcia

Ivana disse...

Camil, gostei. Moro no Brasil mesmo, mas fora de minha cidade. Sonho em ter esta oportunidade de viver em outro país, mesmo que por tempo determinado. Seu manual me serviria, com certeza.
Beijos.

Georgia disse...

Conselhos sábios, difícil mesmo é pô-los em prática...

Abracos

Joaninha Bacana disse...

Adorei o post, Camila :-) Teve partes em que eu ria sozinha: nao tem como nao se espelhar :-))) E amei o numero 3: paciencia, muita pacienca, sempre, hehehe :-D
Beijocas, Angie

Roseane, disse...

Eu acho que toda informação sempre é útil. Muito legal o que você escreveu. Eu também acho que fiquei mais chata, depois que mudei para cá. Deve ser falta do que fazer, eh eh eh... Bjks

Camila Hareide disse...

Xará, vim retribuir sua visita e seu comentário, apesar de já ter vc no blog roll desde antes. Pois é, linguiça de peixe é uma excelente opção, rsrsrs. E gostei bastante desse post. Faço minhas as suas palavras - a única diferença é que eu não tô em fase reclamona. Tô na fase Gente que Faz. Até quando manterei o sorriso, aí já não posso prever...

abraço
Camila

nadine disse...

Camila, (que por acaso é minha xará), gostei bastante do seu blog. Primeiro, pela homenagem ao U2 e segundo porque ue me identifico demais com seu post.

Viver num país estrangeiro, seja por qualquer motivo, não é fácil mesmo. Mas os mais surpreendente é que a gente descobre inúmeros talentos que ajuda na nossa sobrevivência.

Eu vivo no Porto (Portugal) já há um ano por motivo de estudos, mas mesmo assim a gente ainda encontra enormes barreiras culturais que cabe mesmo à nós (mesmo que seja muito chato) superar.

Boa sorte pra vc por aí!